Sinéad O’Connor e o Sagrado Feminino

Muita gente reclamou que esse texto da Sinéad é importante para os dias de hoje e ficou perdido no fim de um post enorme. Ok, concordo. E por isso republico aqui, com mais destaque. Escrito em 1999 o texto continua profundamente atual. Vale a reflexão:

Sinéad O’Connor em carta aberta ao Papa João Paulo II, maio de 1999:

O fato do aspecto feminino de Deus não ser reconhecido pela maioria das religiões no mundo, aliado à proibição de matrimônio para os padres e ao fato de que mulheres não podem ser ordenadas sacerdotisas, tudo isso tem tido um efeito terrível e mulheres e crianças têm sido tratadas de maneira horrível, Sua Santidade. Mulheres não possuem poder nesse mundo, os sistemas são todos construídos pelos homens, e isso está matando o mundo, Sua Santidade, pois não respeitam como divino as coisas que ainda são consideradas remotamente “femininas”. Compaixão, lágrimas, emoção, paixão, raiva, a Graça Divina. Mas Santo Agostinho não nos disse “a raiva é o primeiro passo para a coragem”? Peço-lhe que perdoe a minha raiva, Sua Santidade, mas “o homem que não perde a cabeça por algumas coisas não tem cabeça para perder”.

The fact that God’s ‘female’ aspects are not really acknowledged by most religions in the world, the facts also that priests cannot marry and that women can’t be priests, have had the most unfortunate effect the women and children of this world are being treated terribly badly, Your Holiness. Women have no power in this world, in systems all built by men, and it is killing the world, Your Holiness, that we do not respect as divine that which is even considered to be remotely ‘female’. Compassion, tears, emotion, passion, anger, Divine Grace. But didn’t St Augustine say that, “Anger is the first step towards courage”? I ask you to forgive me my anger, Your Holiness, but “the man who does not lose his mind over some things has no mind to lose”.

fonte: http://www.independent.ie/unsorted/features/diary-of-a-postmodern-priestess-518921.html

mulheres que fazem minha cabeça

Homenagem a nove mulheres que contribuiram | contribuem para que eu seja quem sou.

Clarice Lispector

Hoje é moda citar  Clarice. Mas lembro de um tempo em que as pessoas respondiam “quem?!” cada vez que eu dizia o que estava lendo. O primeiro livro de Lispector que caiu em minhas mãos foi “A Paixão Segundo G.H“. Os parágrafos abaixo são as lembranças mais antigas que guardo de Clarice Lispector:

Minha tragédia estava em alguma parte. Onde estava o meu destino maior? um que não fosse apenas o enredo de minha vida. A tragédia – que é a aventura maior – nunca se realizara em mim. Só o meu destino pessoal era o que eu conhecia. E o que eu queria.

Em torno de mim espalho a tranqüilidade que vem de se chegar a um grau de realização a ponto de se ser G.H. até nas valises. Também para a minha chamada vida interior eu adotara sem sentir a minha reputação: eu me trato como as pessoas me tratam, sou aquilo que de mim os outros vêem. Quando eu ficava sozinha não havia uma queda, havia apenas um grau a menos daquilo que eu era com os outros, e isso sempre foi a minha naturalidade e a minha saúde. E a minha espécie de beleza. Só meus retratos é que fotografavam um abismo? Um abismo.

Um abismo de nada. Só essa coisa grande e vazia: um abismo.

Cecília Meireles

Leio poesia desde que me entendo por gente. E isso, a essa altura da vida, dificulta a memória. Não sei mais dizer quais os primeiros poetas que li, nem por qual primeiro me apaixonei. Mas a memória mais antiga de uma poesia feminina é, sem dúvida, de Cecília Meireles: ainda hoje seu trabalho me inspira e me define.

Motivo

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.

Maria Bethânia

MPB é fundamental na vida de uma pessoa :) Cresci ouvindo e adoro até hoje. Temos muitas musas e seria impossível citar todas. Para representá-las escolhi minha predileta: Bethânia.

Marina Lima

Foi uma mulher quem me fez descobrir o lado pop da vida. Meu irmão sempre adorou Marina. Eu ouvia de longe e nunca dei a devida atenção. Até um dia em que passei pela sala de casa e estava tocando essa música. Daí em diante meu jeito de ouvir o mundo mudou substancialmente:

Simone de Beauvoir

Aos 12 anos de idade me apaixonei por Filosofia. Aos 13, pelo Existencialismo. Sim, devorei Sartre. Mas quem me levou até ele foi Simone de Beauvoir. Aqui, um trecho de “O Segundo Sexo” – um livro que todo mundo deveria ler:

Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam de feminino. Somente a mediação de outrem pode constituir um indivíduo como um Outro. Enquanto existe para si, a criança não pode apreender-se como sexualmente diferenciada. Entre meninas e meninos, o corpo é, primeiramente, a irradiação de uma subjetividade, o instrumento que efetua a compreensão do mundo: é através dos olhos, das mãos e não das partes sexuais que apreendem o universo. O drama do nascimento, o da desmama desenvolvem-se da mesma maneira para as crianças dos dois sexos; têm elas os mesmos interesses, os mesmos prazeres; a sucção é, inicialmente, a fonte de suas sensações mais agradáveis; passam depois por uma fase anal em que tiram, das funções excretórias que lhe são comuns, as maiores satisfações; seu desenvolvimento genital é análogo; exploram o corpo com a mesma curiosidade e a mesma indiferença; do clitóris e do pênis tiram o mesmo prazer incerto; na medida em que já se objetiva sua sensibilidade, voltam–se para a mãe: é a carne feminina, suave, lisa, elástica que suscita desejos sexuais e esses desejos são preensivos; é de uma maneira agressiva que a menina, como o menino, beija a mãe, acaricia-a, apalpa-a; têm o mesmo ciúme se nasce outra criança; manifestam-no da mesma maneira: cólera, emburramento, distúrbios urinários; recorrem aos mesmos ardis para captar o amor dos adultos.

Até os doze anos a menina é tão robusta quanto os irmãos e manifesta as mesmas capacidades intelectuais; não há terreno em que lhe seja proibido rivalizar com eles. Se, bem antes da puberdade e, às vezes, mesmo desde a primeira infância, ela já se apresenta como sexualmente especificada, não é porque misteriosos instintos a destinem imediatamente à passividade, ao coquetismo, à maternidade: é porque a intervenção de outrem na vida da criança é quase original e desde seus primeiros anos sua vocação lhe é imperiosamente insuflada.

Cássia Eller

Marina abriu minha cabeça para além das fronteiras da MPB. Cássia me pegou pelas mãos e mostrou o lado Rock & Roll da vida. Sinto saudades dela como se sente a falta de uma amiga querida.

Amo tudo o que a Cássia Eller canta, mas optei por uma música com letra inspirada em Clarice Lispector: “Que o Deus Venha”

Zélia Duncan

Esta talvez seja a melhor síntese do meu universo: MPB, pop, rock, samba, literatura… tudo isso e mais um pouco está no trabalho de Zélia Duncan. Às vezes tenho a sensação de que quem escreve as letras dela sou eu. Precisa mais alguma coisa pra explicar porque ela está aqui?

A música é “dor elegante“, parceria de Itamar Assunção e Paulo Leminski: o encontro da música com a literatura.

Eleanor McEvoy

Confesso uma coisa: tenho um fraco todo especial por violinos.

Um dia, navegando a esmo pelo youtube, a imagem de uma jovem tocando violino chamou minha atenção. Não resisti e cliquei no vídeo sugerido – exatamente esse que posto abaixo. Desde então a irlandesa Eleanor McEvoy faz parte de minha trilha sonora diária. Seu repertório pop é resultado de sua formação em música clássica, o gosto pela música tradicional irlandesa e a paixão pelo rock. Saborosa mistura.

Sinéad O’Connor

Na década de 80, quando completei 15 anos, minha primeira providência foi passar máquina 3 nos cabelos (pode ser difícil de entender, mas eu realmente me sentia melhor sem aquele peso cacheado na cabeça). No início dos anos 90, Sinéad O’Connor apareceu no Fantástico, completamente careca. Atônita, olhando o vídeo, o único comentário de minha mãe foi “pronto, agora ela vai raspar a cabeça”.

Sim, o ela era comigo. E não, eu não raspei a cabeça. E nem dei importância a Sinéad. Foram necessários quase 20 anos para que uma longa série de absurdas coincidências me fizessem parar e ouvir O’Connor. Isso aconteceu em abril de 2010. Desde então estou tentando desligar o som. Quase 365 dias de ininterrupta audição de Sinéad O’Connor. Portanto, cuidado: se você realmente entrar no universo dessa mulher, pode não conseguir mais sair.

Nem vai querer sair :)

E como Sinéad não é apenas música, começo essa homenagem com algumas de suas (polêmicas?) declarações¹:

Sobre o Sagrado Feminino

(em carta aberta ao Papa João Paulo II escrita em maio de 1999)

O fato do aspecto feminino de Deus não ser reconhecido pela maioria das religiões no mundo, aliado à proibição de matrimônio para os padres e ao fato de que mulheres não podem ser ordenadas sacerdotisas, tudo isso tem tido um efeito terrível e mulheres e crianças têm sido tratadas de maneira horrível, Sua Santidade. Mulheres não possuem poder nesse mundo, os sistemas são todos construídos pelos homens, e isso está matando o mundo, Sua Santidade, pois não respeitam como divino as coisas que ainda são consideradas remotamente “femininas”. Compaixão, lágrimas, emoção, paixão, raiva, a Graça Divina. Mas Santo Agostinho não nos disse “a raiva é o primeiro passo para a coragem”? Peço-lhe que perdoe a minha raiva, Sua Santidade, mas “o homem que não perde a cabeça por algumas coisas não tem cabeça para perder”.

The fact that God’s ‘female’ aspects are not really acknowledged by most religions in the world, the facts also that priests cannot marry and that women can’t be priests, have had the most unfortunate effect the women and children of this world are being treated terribly badly, Your Holiness. Women have no power in this world, in systems all built by men, and it is killing the world, Your Holiness, that we do not respect as divine that which is even considered to be remotely ‘female’. Compassion, tears, emotion, passion, anger, Divine Grace. But didn’t St Augustine say that, “Anger is the first step towards courage”? I ask you to forgive me my anger, Your Holiness, but “the man who does not lose his mind over some things has no mind to lose”.

 

Sobre a Irlanda e a tradição artística

Nós temos uma tradição de passar nossa história oralmente, cantando muito e escrevendo canções sobre isso e há uma espécie de chamado quando eles estão cantando com seu sotaque irlandês.

We have a tradition of passing our history orally and singing a lot of it and writing songs about it and there’s kind of a calling in Irish voices when they’re singing in their Irish accent.

Sobre o estrelato

Eu nunca quis ser uma pop star. Eu queria que minha música significasse alguma coisa.

I never wanted to be a pop star. I wanted my music to mean something.

O que me irrita é ter sete ou oito idiotas de gravadora sentados me dizendo o que vestir.

What pisses me off is when I’ve got seven or eight record company fat pig men sitting there telling me what to wear.

Agora, pra variar um pouco, Sinéad O’Connor com cabelo. E cantando uma música sensível como só a alma feminina sabe ser, a cappella, acompanhada por duas vocalistas de sua banda, num lindo coro de vozes femininas:

¹ meu inglês é terrível: não confie nele, leia os originais ;)