Tereza

Manuel Bandeira

A primeira vez que vi Teresa
Achei que ela tinha pernas estúpidas
Achei também que a cara parecia uma perna

Quando vi Teresa de novo
Achei que os olhos eram muito mais velhos que o resto do corpo
(Os olhos nasceram e ficaram dez anos esperando que o resto do corpo nascesse)

Da terceira vez não vi mais nada
Os céus se misturaram com a terra
E o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas.

(in Libertinagem – Editora Nova Fronteira)

Desencanto

Manoel Bandeira

Eu faço versos como quem chora
De desalento… de desencanto…
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente…
Tristeza esparsa… remorso vão…
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
deixando um acre sabor na boca.

- Eu faço versos como quem morre.

(publicado originalmente em A Cinza das Horas – 1917)

Esse é um dos meus “poemas fundamentais”, textos que formaram minha cabeça, meu jeito de ser, de ver, de sentir o mundo.

SALVE MANUEL BANDEIRA, EM COMEMORAÇÃO AO DIA DO POETA!