Por que você faz cinema?

Joaquim Pedro De Andrade / Adriana Calcanhotto

Para chatear os imbecis. para não ser aplaudido depois de seqüências dó de peito. para viver à beira do abismo. para correr o risco de ser desmascarado pelo grande público. para que conhecidos e desconhecidos se deliciem. para que os justos e os bons ganhem dinheiro, sobretudo eu mesmo. porque de outro jeito a vida não vale a pena. para ver e mostrar o nunca visto, o bem e o mal, o feio e o bonito. porque vi “simão no deserto”. para insultar os arrogantes e poderosos quando ficam como “cachorros dentro d’água” no escuro do cinema. para ser lesado em meus direitos autorais.

(do disco A Fábrica do Poema, 1994 – o post respeita a diagramação original do encarte do disco)

Senhas

Se eu fosse uma música, eu seria:

Eu não gosto do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Eu não gosto dos bons modos
Não gosto

Eu aguento até rigores
Eu não tenho pena dos traídos
Eu hospedo infratores e banidos
Eu respeito conveniências
Eu não ligo pra conchavos
Eu suporto aparências
Eu não gosto de maus tratos

Mas o que eu não gosto é do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Eu não gosto dos bons modos
Não gosto

Eu aguento até os modernos
E seus segundos cadernos
Eu aguento até os caretas
E suas verdades perfeitas

O que eu não gosto é do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Eu não gosto dos bons modos
Não gosto

Eu aguento até os estetas
Eu não julgo competência
Eu não ligo pra etiqueta
Eu aplaudo rebeldias
Eu respeito tiranias
E compreendo piedades
Eu não condeno mentiras
Eu não condeno vaidades

O que eu não gosto é do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Não, não gosto dos bons modos
Não gosto

Eu gosto dos que têm fome
Dos que morrem de vontade
Dos que secam de desejo
Dos que ardem

(Senhas – Adriana Calcanhotto; 1992 do disco de mesmo nome)