o guarda-chuva

Millôr Fernandes

Millôr é assim um tipo de “trilha sonora” da minha vida, apesar de não ser cantor nem música. Mas lembro das muitas vezes que nos reunimos em casa, em volta de um de seus livros, e íamos nos revezando na leitura, numa espécie de sarau familiar. Então minha memória do Millôr é mais auditiva do que visual, uma lembrança sonora que se arrasta desde a infância e – certamente – me acompanhara por toda a vida. Desde sua morte estou pensando em um post bacana aqui para o Bagunça, mas essa maledita correria dos dias modernos não me deixava pensar. Agora topei, meio por acas,o com essa deliciosa conpozissão infãtiu:

O guarda-chuva foi uma coisa que começou como guarda-sol, mas aí choveu. É feito de um cabo, um pedaço de pano e uma porção de varetas que entram nos olhos das outras pessoas que passam e, se elas não se desviam e dizem um palavrão, vão ficando cegas. O pano é preto no de papai e colorido no da mamãe e serve para deixar a chuva escorrer toda pra dentro do sapato. O principal do guarda-chuva da mamãe, que é novo, é que ele não abre nunca, e o do papai, que é velho, é que não fecha nunca.

fonte: saite do Millôr

111111 | 121212

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O 111111 | 121212 é um projeto fotoliterário meu e de Fabiana Mendonça. Começou hoje, 11/11/11 e “termina” em 12/12/12. Uma viagem, uma aventura. A idéia é discutir Luz e Sombra, um fenômeno fundamental tanto no universo fotográfico quanto no literário. Ao final dessa jornada esperamos ter em mãos um romance que está sendo escrito por mim e ilustrado por Fabiana. O livro “Andarilho das Trevas” é um diálogo entre fotografias e textos. Trata das angústias e medos diante do desconhecido e dos fantasmas interiores. A história narra as buscas de uma jovem por seu namorado desaparecido; nesse caminho ela terá que vencer seu medo do escuro e vai descobrir que a Luz, em muitos casos, pode cegar.

O blog é um recurso para experimentação e pesquisas dos conceitos envolvendo Luz e Sombra nos mais diversos setores do conhecimento humano: artes, fotografia, filosofia, psicologia e onde mais essa metáfora possa ser aplicada. As abordagens pesquisadas no blog servirão de apoio no processo criativo de elaboração do livro que será lançado em 12/12/12, coroando nossa aventura.

Dará tempo?

Os Imortais

Jorge Luis Borges

Tudo me foi dilucidado naquele dia. Os trogloditas eram os Imortais; o riacho de águas arenosas, o Rio que o cavaleiro procurava. Quanto à cidade cujo renome se havia espalhado até o Ganges, nove séculos fazia que os Imortais a haviam assolado. Com as relíquias de sua ruína ergueram, no mesmo lugar, a desatinada cidade que eu percorri: espécie de paródia ou reverso e também templo dos deuses irracionais que manejam o mundo e dos quais nada sabemos, salvo que não se parecem com o homem. Aquela fundação foi o último símbolo a que condescenderam os Imortais; marca uma etapa em que, julgando vã qualquer obra, determinaram viver no pensamento, na pura especulação. Erigiram a obra, esqueceram-na e foram morar nas covas. Absortos, quase não percebiam o mundo físico.

in O Aleph (trecho do conto O Imortal)