o guarda-chuva

Millôr Fernandes

Millôr é assim um tipo de “trilha sonora” da minha vida, apesar de não ser cantor nem música. Mas lembro das muitas vezes que nos reunimos em casa, em volta de um de seus livros, e íamos nos revezando na leitura, numa espécie de sarau familiar. Então minha memória do Millôr é mais auditiva do que visual, uma lembrança sonora que se arrasta desde a infância e – certamente – me acompanhara por toda a vida. Desde sua morte estou pensando em um post bacana aqui para o Bagunça, mas essa maledita correria dos dias modernos não me deixava pensar. Agora topei, meio por acas,o com essa deliciosa conpozissão infãtiu:

O guarda-chuva foi uma coisa que começou como guarda-sol, mas aí choveu. É feito de um cabo, um pedaço de pano e uma porção de varetas que entram nos olhos das outras pessoas que passam e, se elas não se desviam e dizem um palavrão, vão ficando cegas. O pano é preto no de papai e colorido no da mamãe e serve para deixar a chuva escorrer toda pra dentro do sapato. O principal do guarda-chuva da mamãe, que é novo, é que ele não abre nunca, e o do papai, que é velho, é que não fecha nunca.

fonte: saite do Millôr

Lisbon Revisited (1923) – English Version

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Fernando Pessoa (tradução Richard Zenith)

Lisbon Revisited*, de Álvaro de Campos, meu heterônimo predileto do Pessoa, é um dos poemas fundamentais da minha vida. E há muito tempo buscava uma versão em inglês. Finalmente, ei-la!:

No, I don’t want anything.
I already said I don’t want anything.

Don’t come to me with conclusions!
Death is the only conclusion.

Don’t offer me aesthetics!
Don’t talk to me of morals!
Take metaphysics away from here!
Don’t try to sell me complete systems, don’t bore me
with the breakthroughs Of science (of science, my God, of science!)
— Of science, of the arts, of modern civilization!

What harm did I ever do to the gods?

If you’ve got the truth, you can keep it!

I’m a technician, but my technique is limited to the technical sphere,
Apart from which I’m crazy, and with every right to be so.
With every right to be so, do you hear?

Leave me alone, for God’s sake!

You want me to be married, futile, predictable and taxable?
You want me to be the opposite of this, the opposite of anything?

If I were someone else, I’d go along with you all.
But since I’m what I am, lay off!
Go to hell without me, Or let me go there by myself!
Why do we have to go together?

Don’t grab me by the arm!
I don’t like my arm being grabbed. I want to be alone,
I already told you that I can only be alone!
I’m sick of you wanting me to be sociable!

O blue sky—the same one I knew as a child—
Perfect and empty eternal truth!
O gentle, silent, ancestral Tagus,
Tiny truth in which the sky is mirrored!
O sorrow revisited, Lisbon of bygone days today!
You give me nothing, you take nothing from me, you’re nothing I feel is me.

Leave me in peace! I won’t stay long, for I never stay long…
And as long as Silence and the Abyss hold off, I want to be alone!

—————–
* o poema escrito em 1923, pois há outro de mesmo nome escrito em 1926

sem título

nascer-e-morrer

José Régio

Quando eu nasci,
ficou tudo como estava,
Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,
nem houve Estrelas a mais…
Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.

Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.

As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém…

P’ra que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha Mãe…