o guarda-chuva

Millôr Fernandes

Millôr é assim um tipo de “trilha sonora” da minha vida, apesar de não ser cantor nem música. Mas lembro das muitas vezes que nos reunimos em casa, em volta de um de seus livros, e íamos nos revezando na leitura, numa espécie de sarau familiar. Então minha memória do Millôr é mais auditiva do que visual, uma lembrança sonora que se arrasta desde a infância e – certamente – me acompanhara por toda a vida. Desde sua morte estou pensando em um post bacana aqui para o Bagunça, mas essa maledita correria dos dias modernos não me deixava pensar. Agora topei, meio por acas,o com essa deliciosa conpozissão infãtiu:

O guarda-chuva foi uma coisa que começou como guarda-sol, mas aí choveu. É feito de um cabo, um pedaço de pano e uma porção de varetas que entram nos olhos das outras pessoas que passam e, se elas não se desviam e dizem um palavrão, vão ficando cegas. O pano é preto no de papai e colorido no da mamãe e serve para deixar a chuva escorrer toda pra dentro do sapato. O principal do guarda-chuva da mamãe, que é novo, é que ele não abre nunca, e o do papai, que é velho, é que não fecha nunca.

fonte: saite do Millôr

liberdade interior

 

Palestra de Krishnamurti ao vivo

A violência não é só física mas sobretudo psicológica. Existe quando eu me amoldo a um padrão e permito que me programem, que alguém me imponha o que devo fazer… buscar a bondade em minha alma, ou em minha psique, ou o que seja… e se converta em uma “autoridade”. Sempre que eu aceito uma autoridade há violência.

Falo de autoridade psicológica, claro, porque além disso há a autoridade do computador… da lei… da polícia… que me obriga a dirigir pela esquerda ou direita. Se estou na Europa dirijo pela direita. Na Inglaterra ou aqui, pela esquerda. Sim, sim… pela esquerda… Há muito tempo não dirijo. Mas, sim, eu caminho estrada afora pela esquerda… e volto pela direita.

Estava dizendo que haverá violência sempre que pela minha confusão e desordem eu criar uma autoridade. Entendem? Estou confuso, preocupado… então aparece o guru, o sacerdote, o psicólogo… e se convertem na autoridade. Fui eu quem os criou, fruto da minha confusão e desordem. Vejo que enquanto subjetivamente houver uma autoridade, haverá violência. Talvez a autoridade seja a experiência que eu tive, a recordação dessa experiência. Sigam com atenção… o que escolhe como autoridade alguém que disse “eu sei e lhe explicarei tudo quanto necessita saber”. Assim nascem os gurus, os perversos, os corruptos enquanto enchem seus bolsos de dinheiro. Eles estão entre as pessoas mais ricas do mundo. Pregadores, igrejas e organizações. Dizem todos “tenham fé… aceitem…”. E eu estou tão assustado… sou tão ingênuo… que aceito… e na minha desordem, acredito na autoridade.

Quando há ordem não há autoridade. Então faço o que é correto, de maneira natural, e não imitando um modelo. E vendo que uma das principais causas do conflito e desordem é a aceitação da autoridade psicológica, pergunto: pode alguém viver sem um só ideal, sem autoridade, para que em sua vida haja uma enorme ordem agora e não amanhã?

A Paisagem Mental de Alan Moore – II

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Alan Moore

Segunda parte com os vídeos do documentário de Dez Vylenz. Assista apenas se você gosta de arejar sua mente.

Tenho estudado a escola da história do pensamento mágico e o ponto em que começou a dar errado. No meu entender, o ponto em que começa a ir mal é no monoteísmo. Quero dizer, se olhar a história da magia, ela tem suas origens nas cavernas. Tem suas origens no xamanismo, no animismo, na crença de que tudo o que te rodeia, cada árvore, cada rocha, cada animal, foi habitado por algum tipo de essência, um tipo de espírito com o qual talvez possamos nos comunicar. Tinha um xamã ao centro, um visionário que seria o responsável por canalizar as idéias úteis para a sobrevivência. No momento em que encontra as civilizações clássicas verá que tudo isto foi formalizado até certo grau. O xamã atuava puramente como intermediário entre os espíritos e as pessoas. (…) Os xamãs não eram mestres de uma arte secreta mas sim os que simplesmente espalhariam sua informação pela comunidade porque se acreditava que isto era útil para todo o grupo. Quando vemos o surgimento das culturas clássicas, tudo isto se formalizou para que houvesse panteões de deuses. E cada um destes deuses tinha uma casta de sacerdotes que até certo ponto atuariam como intermediários que te instruiriam na adoração a estes deuses. Então, a relação entre os homens e seus deuses, que pode ser vista como a relação entre os homens e seus Eus superiores, não era todavia de um modo direto.

Os alquimistas tinham os componentes para sua filosofia. Eram os princípios Solve et Coagula. Solve era basicamente o equivalente a análise, separar as coisas para ver como funcionavam. Coagula era basicamente síntese, ou seja, tratar de por todas as peças desmontadas juntas outra vez para que funcionem com mais eficácia. Estes são dois princípios muito importantes que podem ser aplicados a quase qualquer coisa na cultura. Ultimamente na literatura, por exemplo, surgiu uma corrente de pós-modernismo, desconstrutivismo. Isto é Solve. Talvez seja tempo nas artes para um pouco mais de Coagula. Tendo desconstruído tudo talvez seja a hora de começar a pensar em por tudo de novo em seu lugar.

O “agora” é este insignificante pequeno momento, constantemente em movimento, em que nos encontramos e que está inexoravelmente deslizando num fio, do passado para o futuro.  Se olhar alguns dos modelos que gente como Stephen Hawking têm sugerido, encontrará algo que está muito mais próximo daquela idéia primitiva sobre como se estrutura o tempo do que da nossa idéia simplista e fatalista do passado, presente e futuro. Eu acredito que o Hawking fala sobre o espaço-tempo como uma espécie de gigantesca bola de futebol estelar, ou uma bola de rugby, se preferir… em um extremo você tem o Big Bang, e no outro extremo tudo volta a se unir no Big Crunch… Mas a bola de futebol existe o tempo todo; e este gigantesco hiper-momento no qual tudo está acontecendo pode significar que era apenas as nossas mentes conscientes ordenando as coisas em passado, presente e futuro.

Penso que o mundo é apenas uma construção de idéias, e não apenas as físicas, e sim as estruturas mentais, as ideologias que temos erigido. ISSO é o que eu chamo de “o mundo”. Nossas estruturas políticas, nossas estruturas filosóficas, os modelos ideológicos, as economias. Estes são na realidade coisas imaginárias, e ainda assim constituem-se no modelo sobre o qual construímos o mundo inteiro. Me ocorre que uma onda de informação suficientemente forte poderia levar abaixo e destruir tudo isso. Uma repentina revelação poderia mudar toda a nossa perspectiva sobre quem nós somos e como nós existimos. A história é um fogo, é o fogo da consciência acumulada e de uma complexidade acumulada. À medida em que nossa cultura progride, vemos que reunimos mais e mais informação e que lentamente começamos a nos mover quase que de uma forma fluída a um estado vaporoso, à medida em que nos aproximamos da complexidade definitiva do ponto de ebulição social.

Eu acredito que nossa cultura está se convertendo em vapor.