liberdade interior

 

Palestra de Krishnamurti ao vivo

A violência não é só física mas sobretudo psicológica. Existe quando eu me amoldo a um padrão e permito que me programem, que alguém me imponha o que devo fazer… buscar a bondade em minha alma, ou em minha psique, ou o que seja… e se converta em uma “autoridade”. Sempre que eu aceito uma autoridade há violência.

Falo de autoridade psicológica, claro, porque além disso há a autoridade do computador… da lei… da polícia… que me obriga a dirigir pela esquerda ou direita. Se estou na Europa dirijo pela direita. Na Inglaterra ou aqui, pela esquerda. Sim, sim… pela esquerda… Há muito tempo não dirijo. Mas, sim, eu caminho estrada afora pela esquerda… e volto pela direita.

Estava dizendo que haverá violência sempre que pela minha confusão e desordem eu criar uma autoridade. Entendem? Estou confuso, preocupado… então aparece o guru, o sacerdote, o psicólogo… e se convertem na autoridade. Fui eu quem os criou, fruto da minha confusão e desordem. Vejo que enquanto subjetivamente houver uma autoridade, haverá violência. Talvez a autoridade seja a experiência que eu tive, a recordação dessa experiência. Sigam com atenção… o que escolhe como autoridade alguém que disse “eu sei e lhe explicarei tudo quanto necessita saber”. Assim nascem os gurus, os perversos, os corruptos enquanto enchem seus bolsos de dinheiro. Eles estão entre as pessoas mais ricas do mundo. Pregadores, igrejas e organizações. Dizem todos “tenham fé… aceitem…”. E eu estou tão assustado… sou tão ingênuo… que aceito… e na minha desordem, acredito na autoridade.

Quando há ordem não há autoridade. Então faço o que é correto, de maneira natural, e não imitando um modelo. E vendo que uma das principais causas do conflito e desordem é a aceitação da autoridade psicológica, pergunto: pode alguém viver sem um só ideal, sem autoridade, para que em sua vida haja uma enorme ordem agora e não amanhã?

Lisbon Revisited (1923) – English Version

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Fernando Pessoa (tradução Richard Zenith)

Lisbon Revisited*, de Álvaro de Campos, meu heterônimo predileto do Pessoa, é um dos poemas fundamentais da minha vida. E há muito tempo buscava uma versão em inglês. Finalmente, ei-la!:

No, I don’t want anything.
I already said I don’t want anything.

Don’t come to me with conclusions!
Death is the only conclusion.

Don’t offer me aesthetics!
Don’t talk to me of morals!
Take metaphysics away from here!
Don’t try to sell me complete systems, don’t bore me
with the breakthroughs Of science (of science, my God, of science!)
— Of science, of the arts, of modern civilization!

What harm did I ever do to the gods?

If you’ve got the truth, you can keep it!

I’m a technician, but my technique is limited to the technical sphere,
Apart from which I’m crazy, and with every right to be so.
With every right to be so, do you hear?

Leave me alone, for God’s sake!

You want me to be married, futile, predictable and taxable?
You want me to be the opposite of this, the opposite of anything?

If I were someone else, I’d go along with you all.
But since I’m what I am, lay off!
Go to hell without me, Or let me go there by myself!
Why do we have to go together?

Don’t grab me by the arm!
I don’t like my arm being grabbed. I want to be alone,
I already told you that I can only be alone!
I’m sick of you wanting me to be sociable!

O blue sky—the same one I knew as a child—
Perfect and empty eternal truth!
O gentle, silent, ancestral Tagus,
Tiny truth in which the sky is mirrored!
O sorrow revisited, Lisbon of bygone days today!
You give me nothing, you take nothing from me, you’re nothing I feel is me.

Leave me in peace! I won’t stay long, for I never stay long…
And as long as Silence and the Abyss hold off, I want to be alone!

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* o poema escrito em 1923, pois há outro de mesmo nome escrito em 1926

A Paisagem Mental de Alan Moore – II

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Alan Moore

Segunda parte com os vídeos do documentário de Dez Vylenz. Assista apenas se você gosta de arejar sua mente.

Tenho estudado a escola da história do pensamento mágico e o ponto em que começou a dar errado. No meu entender, o ponto em que começa a ir mal é no monoteísmo. Quero dizer, se olhar a história da magia, ela tem suas origens nas cavernas. Tem suas origens no xamanismo, no animismo, na crença de que tudo o que te rodeia, cada árvore, cada rocha, cada animal, foi habitado por algum tipo de essência, um tipo de espírito com o qual talvez possamos nos comunicar. Tinha um xamã ao centro, um visionário que seria o responsável por canalizar as idéias úteis para a sobrevivência. No momento em que encontra as civilizações clássicas verá que tudo isto foi formalizado até certo grau. O xamã atuava puramente como intermediário entre os espíritos e as pessoas. (…) Os xamãs não eram mestres de uma arte secreta mas sim os que simplesmente espalhariam sua informação pela comunidade porque se acreditava que isto era útil para todo o grupo. Quando vemos o surgimento das culturas clássicas, tudo isto se formalizou para que houvesse panteões de deuses. E cada um destes deuses tinha uma casta de sacerdotes que até certo ponto atuariam como intermediários que te instruiriam na adoração a estes deuses. Então, a relação entre os homens e seus deuses, que pode ser vista como a relação entre os homens e seus Eus superiores, não era todavia de um modo direto.

Os alquimistas tinham os componentes para sua filosofia. Eram os princípios Solve et Coagula. Solve era basicamente o equivalente a análise, separar as coisas para ver como funcionavam. Coagula era basicamente síntese, ou seja, tratar de por todas as peças desmontadas juntas outra vez para que funcionem com mais eficácia. Estes são dois princípios muito importantes que podem ser aplicados a quase qualquer coisa na cultura. Ultimamente na literatura, por exemplo, surgiu uma corrente de pós-modernismo, desconstrutivismo. Isto é Solve. Talvez seja tempo nas artes para um pouco mais de Coagula. Tendo desconstruído tudo talvez seja a hora de começar a pensar em por tudo de novo em seu lugar.

O “agora” é este insignificante pequeno momento, constantemente em movimento, em que nos encontramos e que está inexoravelmente deslizando num fio, do passado para o futuro.  Se olhar alguns dos modelos que gente como Stephen Hawking têm sugerido, encontrará algo que está muito mais próximo daquela idéia primitiva sobre como se estrutura o tempo do que da nossa idéia simplista e fatalista do passado, presente e futuro. Eu acredito que o Hawking fala sobre o espaço-tempo como uma espécie de gigantesca bola de futebol estelar, ou uma bola de rugby, se preferir… em um extremo você tem o Big Bang, e no outro extremo tudo volta a se unir no Big Crunch… Mas a bola de futebol existe o tempo todo; e este gigantesco hiper-momento no qual tudo está acontecendo pode significar que era apenas as nossas mentes conscientes ordenando as coisas em passado, presente e futuro.

Penso que o mundo é apenas uma construção de idéias, e não apenas as físicas, e sim as estruturas mentais, as ideologias que temos erigido. ISSO é o que eu chamo de “o mundo”. Nossas estruturas políticas, nossas estruturas filosóficas, os modelos ideológicos, as economias. Estes são na realidade coisas imaginárias, e ainda assim constituem-se no modelo sobre o qual construímos o mundo inteiro. Me ocorre que uma onda de informação suficientemente forte poderia levar abaixo e destruir tudo isso. Uma repentina revelação poderia mudar toda a nossa perspectiva sobre quem nós somos e como nós existimos. A história é um fogo, é o fogo da consciência acumulada e de uma complexidade acumulada. À medida em que nossa cultura progride, vemos que reunimos mais e mais informação e que lentamente começamos a nos mover quase que de uma forma fluída a um estado vaporoso, à medida em que nos aproximamos da complexidade definitiva do ponto de ebulição social.

Eu acredito que nossa cultura está se convertendo em vapor.