Alan Moore
Segunda parte com os vídeos do documentário de Dez Vylenz. Assista apenas se você gosta de arejar sua mente.
Tenho estudado a escola da história do pensamento mágico e o ponto em que começou a dar errado. No meu entender, o ponto em que começa a ir mal é no monoteísmo. Quero dizer, se olhar a história da magia, ela tem suas origens nas cavernas. Tem suas origens no xamanismo, no animismo, na crença de que tudo o que te rodeia, cada árvore, cada rocha, cada animal, foi habitado por algum tipo de essência, um tipo de espírito com o qual talvez possamos nos comunicar. Tinha um xamã ao centro, um visionário que seria o responsável por canalizar as idéias úteis para a sobrevivência. No momento em que encontra as civilizações clássicas verá que tudo isto foi formalizado até certo grau. O xamã atuava puramente como intermediário entre os espíritos e as pessoas. (…) Os xamãs não eram mestres de uma arte secreta mas sim os que simplesmente espalhariam sua informação pela comunidade porque se acreditava que isto era útil para todo o grupo. Quando vemos o surgimento das culturas clássicas, tudo isto se formalizou para que houvesse panteões de deuses. E cada um destes deuses tinha uma casta de sacerdotes que até certo ponto atuariam como intermediários que te instruiriam na adoração a estes deuses. Então, a relação entre os homens e seus deuses, que pode ser vista como a relação entre os homens e seus Eus superiores, não era todavia de um modo direto.
Os alquimistas tinham os componentes para sua filosofia. Eram os princípios Solve et Coagula. Solve era basicamente o equivalente a análise, separar as coisas para ver como funcionavam. Coagula era basicamente síntese, ou seja, tratar de por todas as peças desmontadas juntas outra vez para que funcionem com mais eficácia. Estes são dois princípios muito importantes que podem ser aplicados a quase qualquer coisa na cultura. Ultimamente na literatura, por exemplo, surgiu uma corrente de pós-modernismo, desconstrutivismo. Isto é Solve. Talvez seja tempo nas artes para um pouco mais de Coagula. Tendo desconstruído tudo talvez seja a hora de começar a pensar em por tudo de novo em seu lugar.
O “agora” é este insignificante pequeno momento, constantemente em movimento, em que nos encontramos e que está inexoravelmente deslizando num fio, do passado para o futuro. Se olhar alguns dos modelos que gente como Stephen Hawking têm sugerido, encontrará algo que está muito mais próximo daquela idéia primitiva sobre como se estrutura o tempo do que da nossa idéia simplista e fatalista do passado, presente e futuro. Eu acredito que o Hawking fala sobre o espaço-tempo como uma espécie de gigantesca bola de futebol estelar, ou uma bola de rugby, se preferir… em um extremo você tem o Big Bang, e no outro extremo tudo volta a se unir no Big Crunch… Mas a bola de futebol existe o tempo todo; e este gigantesco hiper-momento no qual tudo está acontecendo pode significar que era apenas as nossas mentes conscientes ordenando as coisas em passado, presente e futuro.
Penso que o mundo é apenas uma construção de idéias, e não apenas as físicas, e sim as estruturas mentais, as ideologias que temos erigido. ISSO é o que eu chamo de “o mundo”. Nossas estruturas políticas, nossas estruturas filosóficas, os modelos ideológicos, as economias. Estes são na realidade coisas imaginárias, e ainda assim constituem-se no modelo sobre o qual construímos o mundo inteiro. Me ocorre que uma onda de informação suficientemente forte poderia levar abaixo e destruir tudo isso. Uma repentina revelação poderia mudar toda a nossa perspectiva sobre quem nós somos e como nós existimos. A história é um fogo, é o fogo da consciência acumulada e de uma complexidade acumulada. À medida em que nossa cultura progride, vemos que reunimos mais e mais informação e que lentamente começamos a nos mover quase que de uma forma fluída a um estado vaporoso, à medida em que nos aproximamos da complexidade definitiva do ponto de ebulição social.
Eu acredito que nossa cultura está se convertendo em vapor.

